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Viagens a Guanajuato, México
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VIAGENS AMÉRICA DO NORTE » MÉXICO » GUANAJUATO

Guanajuato, México

É uma das mais belas cidades mexicanas, classificadas pela UNESCO como Património Mundial. Centro cultural e universitário, Guanajuato é palco de um festival de teatro anual que presta homenagem a Cervantes e das suas ruas coloridas irradia uma luminosidade irreal e festiva.

Por Humberto Lopes

Onde fica Guanajuato [Google Earth]?



GUANAJUATO, O SORTILÉGIO DA COR

Callejón del beso, Guanajuato
Callejón del beso, Guanajuato

O velho aproximou-se devagar e sentou-se, trémulo e hesitante, equilibrando a bengala carcomida contra o assento da frente. Sob o chapéu desbotado o rosto era seco e moreno, um relógio cujo tiquetaque mirrava a olhos vistos. A viagem chegava ao fim quando o homem apontou através da janela a planura ressequida e semeada de pedras e de cactos. Quase gritou: “Hay víboras allá”. Agarrou-me o polegar e os olhos brilharam: “Pero yo no tenia miedo, sacavales la cabeza así” - e riscou no ar um gesto rápido e cortante com a outra mão. Dois dias depois, numa praça de Guanajuato, dei com ele a soprar debilmente para dentro de um saxofone. Deitada no chão, ao lado da velha bengala, descansava a sua perna de pau.

“O México é o último país mágico”, escreveu um dia Pablo Neruda. Mesmo o viajante avisado, sábio de coisas históricas e sérias como o papel objectivo de Guanajuato no teatro das lutas pela independência, acabará por deixar sua ciência de lado, momentaneamente rendidos os sentidos e a alma à embriaguez da luz, à orgia da cor.

É a primeira impressão de Guanajuato, e talvez a mais indelével, essa luminosidade de porcelana que flutua entre ruelas ladeadas de casas pintadas de cores vivas, amarelo, vermelho, azul-anil. As tintas fortes - quase violentas - parecem soltar-se das paredes e diluir-se sensualmente na fantástica transparência que paira sobre a cidade e é coroada por uma abóbada celeste serena e límpida. Com imensa justiça, a cultura Chupícuaro, a mais antiga de Guanajuato, designava os nativos desta região como “os habitantes do céu azul”.


DEBAIXO DAS RUAS, AS MINAS

Guanajuato, Património da Humanidade desde 1987, herdou dos tempos coloniais uma topografia curiosíssima, uma mão cheia de colinas semeadas de casas coloridas, de becos e ruelas com nomes pitorescos: Callejón del Beso, Calle de los Cantaritos, Calle de los Pocitos ou Calle del Sol. Vista de cima, do alto do Cerro de San Miguel, a cidade descobre a sua costela andaluza e árabe, a fisionomia fortemente marcada pela sucessão arabizante de terraços brancos. Não é uma analogia fortuita: os primeiros colonos que aqui se estabeleceram, no século XVI, tinham nas veias sangue andaluz.

Guanajuato, México
Dia dos Mortos em Guanajuato, México

As crónicas precisam a data, entre 1548 e 1550, e o nome do aventureiro, Juan de Rayas. Sedento das riquezas que se adivinhavam no ventre da Nova Espanha, rasgou a primeira mina de prata da região. Um terço de toda a prata que circulou pelo mundo nos duzentos anos seguintes saiu dessas entranhas. Mas como a vida é feita de mudança, as minas esvaziaram-se da sua riqueza, extinguindo-se a luz que iluminava o esplendor de Guanajuato. Um ou dois séculos de glória podem ser apenas um instante frágil e volátil, incerto e imponderável sonho: como cantava um antigo poeta náhuatl, “Si es jade se hace astilhas, si es oro si destroye, si es pluma de quetzal se rasga...” Em Guanajuato, para sublinhar a fantástica fisionomia da cidade, ficaram as galerias das minas, uma complexa rede de túneis convertidos à função de vias de tráfego subterrâneo, labirinto um tanto surrealista e potencialmente claustrofóbico, antítese dantesca da atmosfera radiante da superfície.



ENTRE OS CINCO MAIS SEGUROS DO MÉXICO

Macario Gutierrez Ibarra, mineiro há mais de quarenta anos, conhece os recantos de Guanajuato como ninguém. Ri-se das histórias narradas pela propaganda turística, mas o Callejón del Beso, ruela estreitíssima onde as janelas das casas são separadas por uns meros setenta centímetros, lá está, à espera de almas românticas dispostas a ouvir uma versão mexicana dos amores infaustos de Romeu e Julieta. No final da romaria, assinarão sobre as paredes os seus nomes, como se assim, simbolicamente, pudessem deixar ali lavrada a garantia de uma qualquer eternidade.

Para Ibarra, os subterrâneos de Guanajuato têm outras histórias para contar. Nascido de uma família de mineiros, aqui passou a infância, mas cedo se lançou a tentar a sorte na babilónica capital mexicana. Depois de tempos difíceis vieram dias melhores. Mas as crises, no México, são males endémicos que apenas hibernam algum tempo. Regressado às origens, Macario retomou a tradição familiar; porém, esgotados os argênteos filões de Guanajuato, teve que rumar a Xichú, onde ainda hoje se descobrem novos veios de prata.

Guanajuato, México
Guanajuato, México

O mineiro não esconde um património de decepções coleccionado ao longo de anos. Mas cita o Estado de Guanajuato como um dos que apresenta um desenvolvimento mais sólido nos planos económico e social. O que confirmaria mais tarde através da consulta de dados oficiais: Guanajuato saltou para o quinto lugar (entre os 31 estados mexicanos) no que toca a exportações e a taxa de desemprego é das mais baixas do país. Particularmente glosado pelo governador Vicente Quesada - “el reto de un autêntico estado de derecho” -, parece ser o acento posto na segurança dos cidadãos. As estatísticas apontam Guanajuato, efectivamente, como um dos cinco estados mais seguros de todo o México.



GUANAJUATO, CIDADE MESTIÇA

Sob a densa sombra dos loureiros do Jardín de la Unión observo o movimento à volta do coreto, onde a banda municipal se prepara para começar a tocar. Que diferença entre este pequeno jardim e as outras praças de Guanajuato, bem mais animadas, mais mexicanas também, com os seus buliçosos mercados de rua e gente sempre mergulhada numa azáfama que só se suspende com o cair da noite!

Povoada outrora por purépechas, otomíes e chichimecas, Guanajuato é uma cidade maioritariamente mestiça, reflectindo a proporção nacional em matéria de distribuição étnica. Como acontece noutros estados mexicanos, as comunidades indígenas cultivam um profundo sentido de independência, prosseguindo tradições seculares que identificam os seus membros como exímios artesãos. É sobretudo em redor do Mercado Hidalgo que se concentra o mercado indígena - com os seus têxteis coloridos e objectos de cerâmica.

Ligada ao Jardin de la Unión por um andador (uma rua pedonal), a Plaza de la Paz é o reverso do oásis de sombra do Jardín de la Unión. Eis-nos numa praça solar, aberta à luz que irradia sem cerimónia sobre uma espécie de anfiteatro invertido, desenhado para permitir à Igreja de Nossa Senhora de Guanajuato impor-se imodestamente como vértice de todos os olhares. Dentro da igreja conserva-se uma relíquia, um ícone medieval oferecido à cidade por Felipe II em 1559.



LÁGRIMAS DE MARIACHIS

Na Plazuela de los Ángeles, onde o velho da perna de pau arrancava ao saxofone a sua rouca melopeia, sento-me a ouvir um grupo de músicos entretidos a tocar melodias latino-americanas. Da flauta, grave e melancólica, escorre a belíssima melodia de «Alfonsina y el mar» e as notas vão-se convertendo em sílabas no silêncio da memória: “... una voz antigua de viento y de sal / te requiebra el alma y le está llevando...”. Subitamente aqui, no centro geográfico do México, como um fatal sortilégio, bate o coração da América que sobreviveu à poderosa investida dos conquistadores espanhóis. Precisamente aqui, onde o sangue dos índios transmutado em prata se plasmou também na revolta de Miguel Hidalgo e de outros patriotas, rapidamente consagrada na proclamação da Independência - o célebre “Grito de Dolores”, lançado pelos revolucionários de 1810 em Dolores Hidalgo, uma cidadezinha próxima de Guanajuato.

Estátua de D. Quixote de La Mancha
Estátua de D. Quixote de La Mancha

A noite, sobretudo a noite, vem encher de música as ruas da cidade. Grupos de mariachis giram à volta das esplanadas do Jardín de la Unión. O quadro é clássico, levado à cena pela enésima vez, entre a fina ironia das máscaras dos mariachis cantando infortúnios de amor (“... Ai-ai-ai-ai-ai!, olvidando el rancor / no diré que tu adiós me volvió desgraciado...”) e o - também clássico - constrangimento dos turistas, como se inábeis para aquela récita ou - hipótese divertida - as mágoas do canto lhes dissessem intimamente respeito.

Mas Guanajuato toma todos os anos voos muito para além do horizonte desses postais turísticos. Em Outubro, e desde 1953, o Festival Cervantino - um dos mais famosos e prestigiados acontecimentos culturais de todo o México - traz à cidade um extenso programa multidisciplinar com representações dos quatro cantos do mundo. O festival começou informalmente no meio universitário (a Universidade de Guanajuato, fundada pelos Jesuítas, é uma das mais antigas do México) por uma representação dos entremeses de Cervantes, por volta dos anos cinquenta. A cidade adoptou então, como se fora sua subsidiária, a obra cervantina.



D. QUIXOTE ATRAVESSA O ATLÂNTICO

Mas de onde vem a aura de cidade cultural e cosmopolita que envolve Guanajuato? O pergaminho de haver sido a terra natal de um dos maiores pintores mexicanos, Diego Rivera, talvez tenha seu peso, mas Guanajuato não precisaria desse género de caução. Entre edifícios religiosos e civis, museus, parques e mercados, teatros, minas, antigas fazendas coloniais, a cidade tem muito com que seduzir o viajante. Mas o que parece decisivo para manter acesa a chama da criação artística e intelectual em Guanajuato é a imagem da Universidade como uma das mais prestigiadas escolas de teatro e de música em todo o México. Também os cursos de castelhano para estudantes estrangeiros gozam de um largo prestígio além-fronteiras, atraindo anualmente milhares de jovens de todo o mundo a esta pequena cidade que é, seguramente, uma das mais belas e visitadas de todo o México.

Não se furta o viajante de uma curiosidade particular: um museu consagrado a D. Quixote de La Mancha? Não bastava a irrealidade da luz, a vertigem da cor? Entramos no museu, uma respeitável casa colonial em cujo pátio somos recebidos por um D. Quixote talhado em altivo bronze, e colhe-nos a surpresa de uma das mais consistentes homenagens ao imaginário cervantino do Cavaleiro do Ideal. O museu, inaugurado por Felipe González em 1987, junta vasta e impressionante colecção iconográfica relacionada com as figuras de D. Quixote e do seu fiel escudeiro Sancho Pança. Gregorio Prieto, Dali e Orozco são alguns dos artistas representados. Um anónimo legou uma escultura segundo um desenho de Picasso, da China veio faiança ilustrada com o tema, de Itália cerâmica com preciosos desenhos. Singular interpretação é a de José Guadalupe Posada, o caricaturista que reavivou a iconografia da cerimónia do Dia dos Mortos. A sua «Calavera quixotesca» representa D. Quixote, o Rocinante e Sancho Pança como desengonçados esqueletos lançados em patético movimento...

Ao deixar Guanajuato, retomando a planura pedregosa torturada pelo sol, considero a hipótese de ter sido vítima de uma alucinação - todos os vestígios de uma cidade próxima se vão lentamente dissolvendo nas pregas dos vales e apagando-se do horizonte. A esplêndida capital da prata dos tempos coloniais não é agora mais do que uma imagem quase fantasmagórica na topografia da memória...


O centro de Guanajuato visto do Cerro de San Miguel
O centro de Guanajuato visto do Cerro de San Miguel
Teatro Juarez, no centro de Guanajuato, México
Teatro Juarez, no centro de Guanajuato, México
Guanajuato
Guanajuato
Arquitectura colonial em Guanajuato, México
Arquitectura colonial em Guanajuato, México


GUIA DE VIAGENS


COMO CHEGAR A GUANAJUATO

Guanajuato fica a cerca de 400 km a norte da Cidade do México. Vale a pena fazer a viagem desde a capital num dos modernos autocarros que saem, de hora a hora, da Estação Norte. A Ibéria tem voos diários directos, a partir de Madrid, para a Cidade do México.


QUANDO VIAJAR PARA O MÉXICO

O planalto central mexicano, com aproximadamente 2.000 metros de altitude, tem um clima subtropical, com maior pluviosidade durante o Verão - entre Junho e Setembro. A melhor época para viajar é, portanto, entre Novembro e Abril. Os dias são luminosos e cálidos mas, durante a noite, as temperaturas podem descer consideravelmente.


HOTÉIS EM GUANAJUATO

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INFORMAÇÕES

Não é necessário visto para o México, bastando aos cidadãos da União Europeia o passaporte válido se a estadia não ultrapassar os 90 dias. A Carta Turística entregue à chegada deve ser guardada até ao fim da permanência no país.




LINKS ÚTEIS

» Site Oficial do Turismo do Estado de Guanajuato
» Portal turístico de Guanajuato
» VisitMexico - Promoção oficial do México


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