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VOLTA AO MUNDO » 21. PHNOM PENH, CAMBOJA

Khmer Vermelhos, o lado negro da natureza humana

Entro no Camboja convicto de estar apto a enfrentar as sinistras visões dos horrores praticados pelo sanguinário Pol Pot e seus Khmer Vermelhos. Mas acabo por descobrir que há coisas para as quais nunca se está suficientemente preparado. Um relato repugnante sobre os Campos da Morte e o secreto S-21, em Phnom Penh.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Entro no Camboja a bordo de uma embarcação que sobe o rio Mekong em direcção à capital Phnom Penh. E, ao primeiro contacto, Phnom Penh aparenta ser uma cidade como tantas outras do sudeste asiático. O trânsito caótico, milhares de motorizadas nas ruas, poluição quanto baste, resquícios de arquitectura colonial, mercados apinhados, pobreza, muitas crianças. Mas algo não bate certo. Vê-se demasiada gente com próteses nos membros, demasiadas muletas nas ruas da cidade, pedintes em número exagerado, incontáveis órfãos de pai, de mãe, de esperança, demasiada mágoa espelhada nos olhares. O espectro de Pol Pot e dos seus horrendos Khmer Vermelhos paira ainda, omnipresente, sobre todo o povo cambojano.

Edifício das Nações Unidas em Phnom Penh, capital do Camboja
Edifício das Nações Unidas em Phnom Penh, capital do Camboja

Sabia de antemão muitas das barbaridades que o regime liderado por Pol Pot praticou na tentativa de transformar abruptamente o Camboja num país de orientação maoísta. No espaço de apenas quatro anos, estima-se que cerca de dois milhões de pessoas tenham sido assassinadas, com especial ênfase nos mais letrados - o conhecimento é inimigo da fácil imposição de ideais - e respectivos familiares - futuros potenciais vingadores da morte do seu ente querido. A moeda foi abolida, o sistema de correios paralisado. As populações foram arrastadas das cidades para zonas rurais onde serviam de força de trabalho escravo em cooperativas agrárias. As famílias foram divididas. Milhões de minas foram colocadas em todo o país. E o Camboja quase se isolou do mundo exterior. Uma fase negra na história do país.

Decido, pois, tomar contacto mais directo com essa realidade passada mas não longínqua. Alugo uma motorizada e sigo para o Museu do Genocídio Tuol Sleng, antigo Security Office 21 (S-21), tido como o mais secreto órgão do regime Khmer, especificamente desenhado para interrogatórios e extermínio de oponentes do regime. Visitei recentemente o Museu da Guerra em Saigão e julgava estar preparado para tudo. Mal sabia o que aqui iria encontrar.

O S-21 instalou-se no complexo de uma antiga escola primária. Fecha-se os olhos e quase se consegue imaginar um normal período lectivo com crianças a pular alegremente, constantes gritarias inocentes, uma bola de futebol pontapeada por candidatos a futuros craques, uns quantos joelhos esfolados por quedas sem importância e alguns namoricos precoces. Fecha-se os olhos e parece que os miúdos estão ali, por todo o lado, como se a escola não tivesse, de facto, encerrado. Abre-se os olhos e as grades de ferro nas janelas dissipam qualquer ilusão. Entra-se nas antigas salas de aula e o terror torna-se assustadoramente palpável.

Percorro as divisões do museu em fúnebre silêncio. Muitas das salas de aula foram transformadas pelos Khmer Vermelhos em espaços de interrogatório e tortura. Outras tantas em celas de detenção. Barras de ferro de seis metros de comprimento serviam para amarrar 20 a 30 prisioneiros pelos tornozelos. Alternadamente, de um lado e de outro, para que fossem obrigados a permanecer com as cabeças em direcções opostas. Sempre deitados. Não podiam levantar-se, falar ou sequer sussurrar. Nem tão pouco urinar ou mexer o corpo sem pedir autorização. A ordem era esperar enquanto não houvesse outras ordens para cumprir. Até ao dia final.

Um pintor cambojano - um dos poucos que saiu da prisão com vida -, retratou em tela aquela e muitas outras cenas observadas com os próprios olhos durante a sua reclusão. Percorro lentamente o olhar por todo o seu trabalho, impressionado, até que me detenho em duas telas colocadas lado a lado. Pretendem retratar a forma como o regime de Pol Pot eliminava crianças de tenra idade. Fito as telas completamente petrificado. Numa vê-se um soldado a atirar uma criança ao ar e outro, de espingarda em punho, a usar o pequeno corpo como alvo, disparando. Na outra, um soldado prende um bebé pelos pés e arremessa-o em direcção a uma árvore de grande porte, esmagando sem piedade a cabeça do recém-nascido. “Para poupar balas”, explicam-me.

Abalado, saio do museu e sigo de motorizada para os Campos da Morte onde eram enterrados os prisioneiros vindos do complexo S-21. Tudo é tão recente que ainda hoje há ossos humanos brotando do chão, por todo o lado. A pacatez do lugar é apenas uma sinistra ironia. Meia dúzia de valas comuns adiante dou de caras com a árvore da tela. Desabo. Há coisas para as quais nunca se está preparado...


{ 13.Dez.2004 - 10:26. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Sem palavras.

Um abraço

Comentário à viagem enviado por Pietz em 13.DEZ.2004 - 17:22

E eu me recordo, querido Filipe, dos meus tempos de faculdade, e dos intelectuais, professores da USP (Universidade de São Paulo), dividindo-se entre maoístas e stalinistas. Na cabeça deles, e olhe que se somarmos o QI de todos, deve resultar uns 7,5 mais ou menos, ser contra a guerra do Vietnam significava apoiar o regime de qualquer um desses criminosos, de Castro a Mao. Estão todos em Brasília hoje, cercando o presidente... :o(((... E você tem razão, há coisas para as quais nunca estamos preparados. Pegue no ar um abraço.

Comentário à viagem enviado por Mécia em 14.DEZ.2004 - 04:01

Olá Gralha!!! De alma de viajante a contador de histórias do mundo e no mundo. E que relatos e que mundo que tens visto. Leio com deleite e voracidade sem esforço para imaginar o que sentes e o que vês.
Falo com orgulho do amigo viajante e da sua aventura insólita e deste espaço de partilha aberta ao mundo!
Vou mandando comentários e fico à espera de um fondue para ver o Filipe que cresceu em Ti.
Beijo e recebe um abraço Amigo
Rita Lírio

Comentário à viagem enviado por Rita Lírio em 17.DEZ.2004 - 18:24

Estive lá e nunca tinha visto nada assim (espero não voltar a ver). Ao sair do S-21 tive que vomitar. Foi o Diabo na terra, quem não matava era morto. Das 11.000 pessoas que passaram pelo S-21 só 7 sairam com vida, e a maior parte dessas pessoas eram Khmers Vermelhos que se recusaram a cumprir ordens.
O que faz uma pessoa a matar 1/5 do seu povo em apenas 3 anos?
Onde andava o Ocidente?

Comentário à viagem enviado por João em 26.JAN.2006 - 19:50


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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